por Sandra Benato
Conflito é uma questão cotidiana. Todo movimento, desde o mais aparente, como o simples levantar-se e caminhar, ao mais interior e subjetivo, ou ainda qualquer modo de interação humana, envolve alguma instabilidade. Se, por um lado, o conflito é próprio da alteridade, por outro, é igualmente uma ameaça à própria vida. A sobrevivência depende, mais e mais, de sinergia, um processo transformador e aberto à mudança e que, simultaneamente, reconheça a integridade das diferenças. Uma antiga fórmula que permite este equilíbrio dinâmico é a cortesia, a amizade, a gentileza, o respeito, valores que adquirem os mais diversos matizes culturais mas que respondem por uma necessidade humana de reciprocidade e bem viver.

A beleza e a delicadeza do gesto, a sutileza da atenção amorosa, a reverência espontânea e confiante nos remetem à tradição islâmica da palavra ‘adab[1]’. O sentido mais básico desta palavra é convidar alguém para um banquete, reunir-se para uma refeição. Disto resulta a conotação comum de etiqueta, boas maneiras, adequação de comportamento, e é deste modo que o adab sempre foi parte integrante das práticas sufis, tão importante quanto o ḏikr[2] e a oração. Enquanto prática espiritual o adab procura o refinamento do comportamento como exercício das virtudes associadas aos Nomes Divinos e o aperfeiçoamento do caráter. Por outro lado, enquanto parâmetro de convívio social, cada sociedade se encarregou, tanto no passado quanto no presente, de converter cortesia e gentileza em normas de conduta ou burocracia.
Ibn ‘Arabī[3], gnóstico e pensador muçulmano do século XII, elevou o conceito de cortesia a nível de doutrina, ou seja, um aspecto fundamental para a compreensão da existência, chave para a “arte da vida” e para a realização espiritual. Segundo ele, a cortesia não é senão a união de todo bem que resulta em tawḥīd[4], unicidade. Cada entidade presente na vida possui algum nível de bem e de verdade que é chamada a compartilhar com os demais, a exemplo da hospitalidade que compartilha o sustento.
O sustento, para Ibn ‘Arabī, se conduzido à sua origem mais profunda, é o Alento do Todo Misericordioso[5] que anima toda criatura e constitui seu grau de verdade, de realidade, sua ḥaqīqa[6], ou seja, aquilo que lhe é mais característico, que lhe define enquanto singularidade e que se remete a Al-Ḥaqq, O Real, um dos Nomes divinos. Conhecido como o Mestre Maior, al-Šayḫ al-Akbar, Ibn ‘Arabī entendia a Vida como um atributo do Ser Único, que, através da expressão de Seus inúmeros Nomes, gera a multiplicidade. Toda a existência reflete aspectos distintos de uma Realidade Única e é sustentada por este Existente Único. Veja o artigo completo no link abaixo: