por: Ayoub – naqshbandi de Campinas (SP)
O Paraíso e o Inferno são realidades, não apenas como lugares prometidos, mas como estados que começam a ser tecidos no coração humano. Esta é a Haqq, a verdade que não se oculta: aquilo que o ser humano cultiva em si mesmo, cedo ou tarde, o envolve por inteiro.
Por isso, há uma sutileza que o caminho espiritual ensina e que muitas vezes passa despercebida. Quando alguém suplica apenas: “Ó meu Senhor, protege-me do Inferno”, corre o risco de olhar para o efeito e esquecer a causa. O Inferno não é um capricho imposto de fora, mas o resultado natural de ações, intenções e estados interiores desalinhados com a Verdade.
O sufi aprende a deslocar a súplica. Ele não teme o fogo como imagem distante, mas treme diante daquilo que pode endurecer o coração, obscurecer a consciência e afastá-lo da presença de Allah (swt). Por isso, sua oração se aprofunda:
“Ó meu Senhor, protege-me das más ações, das más intenções e das razões que me afastariam de Ti.”
Neste ponto, o medo se transforma em vigilância, e a vigilância se transforma em consciência viva. O crente (mu’min) não caminha paralisado pelo terror do castigo, mas desperto pelo amor à retidão. Ele observa seus gestos, suas palavras e, sobretudo, seus estados interiores, pois sabe que o Inferno começa quando o ego governa sem freios e o Paraíso desponta quando o coração se submete à Verdade.
Assim, o caminho não é fugir do Inferno, mas purificar aquilo que o cria. Quem cuida das causas, confia o resultado ao Misericordioso. Quem vigia o coração, encontra proteção antes mesmo de pedir.